tango







as mãos do homem
sobeja
mente
magro avançam e
fecham-se
.um trejeito canalha afivela-se-lhe ao rosto
.um afecto inusitado veste a mulher
concebida até às raízes
o rodopio da dança remete-os
devagar
à sensualidade do momento

a criação

o homem percorre a mulher com
os dedos arvorados de estrelas e
retém-se na respiração quente que
os passos ceifam
em ardor ao bater

a dança

os corpos vergam-se
no sentido do coração
agitam-se ao compasso e
as pontas dos pés distendem-se num encontro
.os corpos vibram
os acordes intensificam-se no
estremecimento precoce do acordeão

perfeito

a mulher vacila
o homem murmura

soltos numa intimidade absoluta e

sem rodeios

há um pássaro que se move e 
se apaga
.voa ao encontro dos corpos
.pousa sobre a cabeça da mulher
.desce para o ombro

as mãos do homem abrem-se ao
ritmo brusco dos dedos e
perdem-se

arvorados pelo cansaço