ide .a liturgia acabou








não tenho nada a acrescentar
a não ser um pouco de azul ao sol e de
vermelho à lentidão dos passos que crescem em itálico






será possível a reparação dos estragos?








um balouçar no vento procura silenciar a voz do falo
enquanto a dança das equações tece o manto
de Ariadne onde os arcanjos encenam
o funeral das Bacantes e os
cáusticos mortais
embebedam-se
cobertos pela patena
do verbo .tudo se consome
ou traduz num gesto casuístico
quando de novo as mãos se sobrepõem
à ausência e deus abandonado num logro (con)sentido
volta a semicerrar os olhos permitindo à Poesia a reparação

dos estragos






com a respiração suspensa pela brandura da tarde








ao fim das tardes de estio
acordo com uma angústia nas mãos
e uma vontade – única – de transformar
tudo e todos numa história alimentada por
areias paradas no tempo .nada as agita a não
ser uma sombra de vento suão que nos faz sentir
invasores .as ondas quietas ou agitadas que outrora
povoaram o meu imaginário guardo-as para outras es
critas mais ao sabor da brisa que não ousa fazer parte des
te cantar de livro em pousio

o fogo ínvio da fantasia respira sob um escadote esquecido ao sol






a brincar se assentam verdades








houve mãos que moldaram um esboço
outras que tentaram escondê-lo na garganta
das víboras e outras ainda que o arremessaram ao
esconso da escrita .ninguém soube sentá-lo no sofá da sala
onde o editor havido no acórdão de assinar o consentiu como aspirante
ao nobel da literatura .na errância das chamas alvitram-se tempos de arrecadar tijolos






cantata de profundis








silêncio mole este que se anuncia breve
desconstruindo a construção do Ser
sibilante .o sorriso das magnólias
subjaz às ravinas de um acento
de gente .desnuda-se o canto
no oscilar da carne e um
parecer difuso agasta-
-se célere na canta
ta do ómega

mudo o beta






talvez amanhã se oiça o grito dos insectos








sob o signo divino inicia-se
a dança como se a copulação fosse
o arremedo final para o cômputo das
circunferências .rasgam-se as vísceras de
uma ovulação menor em que o falo transgride
o epicentro como se para além de si o gesto áspero
transferisse o canto das Sibilas adormecidas na castidade
dos áugures .recortam-se os símbolos nas margens expostas
onde as palavras se inserem nas metástases dos vermes e tudo não
é mais do que uma superfície de gelo colada a uma vela acesa e deixada
dentro do corpo de um vulgar insecto

os Seres (in)vertebrados afogam-se sozinhos na voz dos mendigos






des.necessária a última pétala de ternura








sobejam restos no sobressalto dos sonos
deixados sobre as almofadas .alguém se esqueceu
de os embrulhar e o alvoroço das  nuvens cativas no
Inverno da vida colocou dentro da ternura um pouco mais de
açúcar como se o mesmo fosse necessário para fazer correr rios de
tinta nos dedos onde os poemas se inserem .híbridos .há na letargia do
verso a capitulação maior e o poeta vestido de branco e negro deixou inscritas
na sombra as mãos abertas à alva madrugada
carecem de espanto as evidências dos ósculos






poetar não é coisa assim tão fácil








é tão difícil interpretar a voz do vento
deixá-lo perdido na metafísica de um pássaro
que se levanta sobre a superfície da mesa para nela
verter símbolos concêntricos quais hipérboles desenhadas
ao desbarato .do pássaro restam alguns sinais de vida que sobem
e descem ao fim do dia num poema escrito com muitas nódoas negras 
e o ranho exigidos pelo a manhe'Ser do estro .estafam-se todas as hipóteses e
no fulgor do ritmo o poeta pega na vassoura da escrita e com dedos de vagamundo
expurga as estrofes da canzoada






dêem a voz ao poeta








dêem ao poeta um minuto para que possa
transformar a fadiga e a fome no sobressalto dos
deuses em perfeita subversão .dêem-lhe também um misto
de tristeza e solidão e ele transforma-las-á num canto maior com
o cheiro a mar onde os barcos se acoitam no en tarde'Ser das horas mortas
porque qual peregrino de sonhos pervertidos pela visão ( exangue ) das marés
mergulhará no relevo bravio dos poentes
por dentro da liberdade de ser voz






murmúrios vadios cuspidos no tempo








se meu fado se gosta em azul meu brado
de cio se tece em amarelo .um rasgo
de sim .um limite ou zero
no conflito de ontem
porque amanhã
é tarde






se me fosse con.cedida a alegria de voar








sob os meus dedos-água estremecem
conflitos incêndios paisagens jogos falas
que voam ao ritmo absurdo de um encontro
há muito predito .deslizam céleres os corpos que
deles emanam ao encontro do amor inventado em itá-
lico enquanto uma linha de espuma se atreve predizendo
o nascimento do verso concebido na ferocidade suspensa de
um poeta//pintor .em mim toldam-se os ritmos na violência crescente
de quem se despe de ruídos e no café gelado esconde uma alegria errada
.uma paixão que vibra .uma vertigem que se entredevora na clivagem absurda
de um voltar de página






regresso a mim








consinto a minha ausência como
a negação possível para a invocação do
absurdo .atenho-me na gnose e do divino
coloco a capa para a largar no momento seguinte
ao parto .dobro-me sobre o ventre  e deixo um resto de
sombras no asfalto ( enquanto ) os demónios sustentam o
equilíbrio passível de re.organização .lasciva deixo-me envolver
no sangue dos que me têm em in.solvência .não partilho .ausento-me

sou de mim o asco final






os poetas rasgam-se des.crentes








prosaicos e im.previdentes são os poetas
comem bebem cospem vomitam e
dormem sobre os dilates de
uma escrita que lhes en-
torpece o intento

vulneráveis
talantes da imagística







que desígnios se elevam nas folhas de excel?








a respiração suspensa segundo o mistério
do pensamento exige a superação do segredo
das Tágides envoltas na genialidade de um gesto
que apesar de híbrido se confunde na consagração do
bezerro de ouro .pressuposta a sujeição - porque tudo é dei-
xado ao acaso - a voz que se perpetua no deserto dos crentes é o
resquício do fogo que há muito se apagou .restam as cinzas ou algo
muito mais simples que os serviçais equiparam às equações matemáticas
como se as variáveis se transformassem em pressupostos exigíveis ao entendi-
mento .do bezerro de ouro restam os cornos como pontas grifadas do selo divino   

nos sacros versículos flutuam as carpas






de água cinzenta se espargem as liturgias








prendo-te ó salmo na iluminura do texto que as Escrituras
inscrevem nos jardins do Éden quando Eva subscrita
ao mistério do macho exibe-se
no segredo do falo

Adão
- à imagem e semelhança divina -
a.doura o próprio génio






um agrave de memória na ponta dos dedos








sublime ironia a dos deuses que dos meus textos
copiam a sintaxe deixando a morfologia para
depois .depois esquecem-se de amorar os
sintagmas que prontos a golpear ousam-
-se cansados nas amuradas dos navios
onde de profundis o Outono colhe
as trevas prontas
a ante-ver

poemas em grito e desova






um acordar de mansinho








sento-me sobre a cama e espero
que um copo de água mate a sede do teu
corpo//lança .uma vela apagada arde sobre
o mutismo dos dias e faz-me companhia o vento
que bate na janela do quarto .os símbolos de um amor
vadio deixam sinais no meu corpo que se abre ao abandono
como uma variação possível do estio que tarda já que a metafísica
dos minutos se enquadra  como nódoa no sono que me deixou há pouco
.abro-me ao trilho das tuas mãos para qual pêssego maduro recortar-me na
senda do desalinho onde o poema se escreve como prenúncio de novas alvoradas







.4

























…“sobram Invernos às palavras”…
























porque de branco me dispo







            num devir mui próximo

o zunido do vento há-de dizer-me
não vás por aí mas
eu vou
o balanço da árvore há-de dizer-me
não vás por aí mas
eu vou
o chilreio do pássaro há-de dizer-me
não vás por aí mas
eu vou

irmã do verbo abrirei as mãos e
gravarei nas pedras
o canto negro de José Régio







último tango







……………………………….


um relógio cego de fúria
compôs o último tango em
                                      Paris